Discurso de Inauguração do II Gathering da Celtic Druid Alliance

12/20/2019

Discurso de Inauguração do II Gathering da Celtic Druid Alliance

 

Estimadas Irmãs e Estimados Irmãos Celtas, Convidadas e Convidados:

 

Guindada pelas forças ígneas do Fogo Celeste, a Grande Roleta Cósmica do Destino, tutelada pelo Espírito Universal, trouxe-nos até esta mítica Terra Céltica, onde os Deuses e Deusas da Céltia foram cultuados desde a Noite Primeva.

De modo a que o sentimento de abertura e fecundidade impere e que a Luz do Espírito possa agir dentro de cada um de nós, permitam-me que dê início a este nosso reencontro pedindo-vos que me acompanhem numa breve meditação em honra dos nossos Ancestrais. (Meditação)

 

“Desperte...

- Acolha livremente a Luz do Espírito Universal e assuma o compromisso de a servir;

- Defenda corajosamente a prevalência da Verdade;

- Mantenha-se insubornável perante os bens materiais e indomado pelos poderes terrenos;

E assim tornar-se-á um Peregrino do Amor…uma Voz feita de Luz e um Coração cheio de Natureza.”

 

Esta Tríade Céltica Lusitana servir-nos-á de mote para o itinerário que neste momento tão especial procuraremos exibir. Em boa verdade, ela traduz de modo cristalino o modo como nós, humildes caminhantes, poderemos alcançar a verdadeira Sabedoria dos Druidas Celtas, que não se refere apenas ao simples conhecimento enciclopédico sobre a nossa Tradição, mas também à capacidade de mobilizar esse stock de conhecimento para resolver problemas neste mundo da fatalidade no qual habitamos, atualmente tão necessitado da Iluminação Espiritual que a nossa Tradição Celta lhe pode realmente proporcionar. Esse despertar, refere-se, primeiramente, à intuição de que existe um Caminho que nos poderá levar, por via de um acontecer benfazejo, a poder respirar em uníssono com as mais Altas Esferas Espirituais e, por fim, a alcançar as três transcendências últimas: a Felicidade, a Liberdade e o Amor. É o Caminho da Tradição dos Druidas Celtas.

 

Mas esse Caminho, acerca do qual muitas narrativas emergiram, muitas delas sustentadas em meras casuísticas, inicia-se com uma livre, genuína e amorosa amarração, isto é, um juramento ou compromisso que primeiramente o assuma como pertença fundamental e que a partir dele se constitua uma Identidade ou modo Celta de ser.

 

Uma análise mais rigorosa ao processo de formação da Identidade Celta evidencia que a sua interpretação em cada momento histórico se encontra necessariamente condicionada por paradigmas religiosos e politicamente instituídos. Antes de mais, analisar este processo evolutivo da formação da Identidade Celta passa por compreender o que os Celtas verdadeiramente valorizavam como significativamente importante, em suma, que ideia ou noção os Celtas tinham de «Bem».

 

Este «Bem», que não se reduz nas categorias do ter ou não ter, da mera posse, pode projetar-se em disponibilidade em direção ao alcance de um futuro «Bem», não apenas desejado, mas fundamentalmente imaginado, sentido ou sonhado, enfim, um «Bem» verdadeiramente espiritual. No que diz respeito, quer aos Celtas, em particular, quer à Tradição e Cultura na qual nos inscrevemos, é possível identificar uma realidade e um padrão não instrumental das expectativas ou aspirações que estabelecemos na sua relação com os princípios celtas pelos quais nos regemos e os valores celtas com que nos identificamos.

A questão premente não é a possibilidade ou não da realização dos nossos desejos e intenções que fundamentam as nossas ações, mas um Mundo Celta envolto em moral senses cuja existência é de tal modo mágica que se constitui independentemente dos nossos desejos.

 

Quer isto dizer que nós, os Celtas contemporâneos, comportamos uma ancestral predeterminação espiritual que constitui a nossa radicalidade essencial e que presentificamos a cada momento do nosso existir. A presentificação destes referenciais espirituais, que se constituem como valores e princípios orientadores do nosso acontecer Celta, traduz-se naturalmente nas nossas atitudes, comportamentos e nas nossas ações, evidenciando decisões por nós assumidas em relação a questões não só instrumentais, mas portadoras de um significado muito mais profundo e substantivo, uma vez que deverão ocorrer necessariamente dentro de uma comunidade de pertença e que lhes dará sentido: a Grande Egrégora Celta, de que este nosso Encontro é perfeito exemplo.

 

A Grande Egrégora é a Comunidade a que pertencemos e o laço de pertença que a Ela nos liga é expresso na nossa maneira de ser, de estar, de agir e de sentir, mais até do que na língua e na história que partilhamos ou não dentro dessa Comunidade; é objetivado nas instituições que enquadram a nossa vida intercomunitária, como é o caso da Celtic Druid Alliance, que é a forma pela qual a nossa Identidade Coletiva Celta veicula ao mundo os seus valores fundamentais, daí a sua extrema importância para todos os grupos que a integram.

 

Dois fatores concorrem para o esclarecimento daquilo que está articulado e de como isso contribui para a fomentação e formação de uma identidade Pan-Céltica, quer individual, quer coletivamente entendida:

Por um lado, os fins que orientam a nossa existência não são produto duma escolha arbitrária e soberana, mas produto de uma autointerpretação contextualizada da nossa situação num horizonte comunitário espiritual e cultural que nos precede. Nesta perspetiva, aquilo que dá primevamente sentido à existência de cada um de nós, Celtas, são conteúdos substanciais pré-existentes que irão permitir tecer a própria narrativa de cada um. Estes conteúdos já se encontram pré-inscritos na Espiritualidade e na Cultura Celta sob forma de Tradição. Esta Tradição, que nos é comum, que nos liga, que nos une, que nos alia, funciona assim como referencial unificador de um sentido que, sendo comum, é necessariamente inclusivo e, como tal, pode-se Encontrar.

 

É da articulação entre os compromissos, as identificações, as escolhas de cada um e do horizonte comunitário-cultural que nos precede, que poderá emergir uma Identidade Celta que possa ser manifestada e reconhecida como digna pela nossa Ancestralidade e Descendência Espiritual. Deste modo, a nossa Tradição, que é atávica, só poderá ser devidamente interpretada à luz de resultados solidificados, obras resultantes de esforços comunitários e intercomunitários e de articulação de sentimentos e vivências. Caso contrário, imperará uma identidade fracionada e não reconhecível pelos tempos. No entanto, é necessário realçar que a interpretação da Tradição como um resultado solidificado não implica a sua estagnação ou a sua perpétua repetição, pelo contrário.

 

De facto, o desenvolvimento da Tradição Celta é garantido pela possibilidade de integração reflexiva dos antigos sentidos valorativos face a novas realidades, solidificando e afirmando os bens constitutivos através dos quais formamos a nossa identidade. São esses bens constituintes dos Celtas, enquanto indivíduos e, de outro modo, da identidade coletiva, enquanto Egrégora, que permitirão que a humanidade perceba o mapa valorativo pelo qual os Celtas de hoje se orientam na construção das suas vidas e das suas comunidades, bem como a mensagem importante que transmitem relativamente, por exemplo, à Natureza, tida pelos Celtas como Ser Supremamente Sagrado.

Tais bens constituintes podem ser designados como «fontes morais», ou seja, fontes que poderão motivar e que poderão inspirar a ação humana no mundo, sendo portanto dignos de serem perseguidos, aspirados, desejados e transmitidos. De outro modo, quando um bem constitutivo de uma comunidade não é um bem articulado a todos os seus constituintes, este poderá acabar por fenecer, isto é, perder sua força condutora e inspiradora do comportamento ou da ação humana, ou seja, corre o risco de perder eficácia como fonte moral e, por ampliação desta, como fonte espiritual.

 

Neste sentido, todos os Celtas dignos desse nome necessitam de um grupo de identificação. As pessoas não aprendem sozinhas o que é necessário para a sua autodefinição: as expressões, os gestos, a afetividade, o amor e a espiritualidade – enquanto formas de partilha e comunhão de Rituais e Cerimónias, mais ou menos solenes, mais simples ou mais complexas – acompanham-nos e constituem-nos desde sempre.

 

Se o significado de identidade Celta é aquilo que nós somos, a razão por que o somos e a maneira como o somos, a Egrégora Celta é o enquadramento no qual os nossos gostos, desejos, opiniões e aspirações ganham sentido. Quer isto dizer que, se as pessoas aqui presentes se identificam umas com as outras pela sua celticidade, isto é, pela Tradição e Espiritualidade Celta que as une, está justificada a razão pela qual a Celtic Druid Alliance optou por realizar ciclicamente estes Encontros e estas Peregrinações a outras Terras Célticas, a outras Culturas, a outras Casas, onde a partilha comum destas características poderá dar origem a uma Egrégora cada vez mais saudável e por via da qual uma identidade Pan-Céltica poderá verdadeiramente emergir em torno de um interesse, de um ideal e de uma Espiritualidade que, não obstante as suas diversas expressões, nos é comum. Serve isto para afirmar que os diversos grupos, ainda que no fundo sejam variáveis pertenças que caracterizam as pessoas e as permitem identificar, poderão sempre abrir espaço ao Encontro com os demais.

 

Estimadas Irmãs e Estimados Irmãos Celtas, Convidadas e Convidados:

Sejam todas e todos bem-vindos a esta vossa Casa que recebe o II Encontro da Celtic Druid Alliance. São nossos os profundos desejos que esta Peregrinação por Terras Célticas da Lusitânia seja recordada de forma tão especial ao longo das vossas vidas, quanto especial e honroso é para a Assembleia da Tradição Druídica Lusitana recebê-los no Centro Druídico da Lusitânia.

 

/|\ Adgnatios

 

 

Inauguration Speech of the II Gathering of the Celtic Druid Alliance

 

Dear Celtic Sisters and Celtic Brothers, Dear Guests:

 

Guided by the igneous forces of the Celestial Fire, the Great Cosmic Roulette of Destiny, guarded by the Universal Spirit, h

 

as brought us to this mythical Celtic Land, where the Celtic Gods and Goddesses have been worshiped since the Primal Night.

So that the feeling of openness and fertility prevails and that he Light of the Spirit can act within each one of us, let me begin this reunion by asking you to join me in a brief meditation in honor of our Ancestors.

(Meditation)

 

“Wake up...

- Freely accept the Light of the Universal Spirit and make a commitment to serve It;

- Boldly Defend the Prevalence of Truth;

- Remain incorruptible and untamed by earthly powers;

And so you will become a Pilgrim of Love … a Voice made of Light and a Heart full of Nature.”

 

This Lusitanian Celtic Triad will serve us as a theme for the itinerary that we will try to present at this very special moment. In fact, it translates crystal-clear the way we, humble pilgrims, can reach the true Wisdom of the Celtic Druids, a Wisdom which not only refers to simple encyclopedic knowledge about our Tradition, but also to the ability to mobilize this stock of knowledge to solve problems in this world of fatality in which we inhabit, currently so in need of the Spiritual Enlightenment our Celtic Tradition can provide. This awakening refers, firstly, to the intuition that there is a Way that can lead us, through a benevolent event, to be able to breathe in unison with the Highest Spiritual Spheres and, finally, to reach the three transcendences: Happiness, Freedom and Love. It is the Path of the Tradition of the Celtic Druids.

 

But this Path, from which many narratives emerged, many of them sustained by mere casuistry, begins with a free, genuine and loving binding which represents an oath or commitment assuming it as a fundamental belonging  Celtic Identity or a Celtic way of being.

 

A deeper analysis of the process of the formation of the Celtic Identity shows that its interpretation in each historical moment is necessarily conditioned by religious and politically established paradigms. First and foremost, analyzing this evolutionary process of Celtic Identity formation involves the understanding of what the Celts truly valued as significantly important, in short, what idea or notion the Celts had of 'Good'.

 

This "Good", which is not reduced to the categories of having or having not, of mere possession, can project itself in availability towards the attainment of a future "Good", not only desired, but fundamentally imagined, felt or dreamed, finally, a truly spiritual «Good». As regards both, the Celts (in particular) and the Tradition and Culture to which we belong, it is possible to identify a reality and a non-instrumental pattern of the expectations or aspirations we establish in its relation towards the Celtic principles by which we rule ourselves and the Celtic values with which we identify.

The essential issue is not whether or not our wishes can be fulfilled and the intentions that underlie our actions, but a Celtic World embedded in moral senses whose existence is so magical that it is independent of our desires.

 

This means that we, the contemporary Celts, carry an ancestral spiritual predetermination that constitutes our essential radicality which we make present each moment of our existence. The making present of these spiritual frameworks, which constitute the values and guiding principles of our Celtic happening, naturally translates into our attitudes, behaviors and actions, evidencing decisions we make regarding not only instrumental issues, but with a much deeper and more substantive meaning, since they must necessarily occur within a community of belonging that will give them meaning: the Great Celtic Egregore, that our Encounter is a perfect example.

 

The Great Egregore is the Community to which we belong, and the bond of belonging that binds us is expressed in our way of being, our way to be, to act and to feel, so much more than the language and history that we might share or not within that Community; this is objectified in the institutions that frame our intercommunal life, as it actually happens with the Celtic Druid Alliance, which is how our Celtic Collective Identity conveys to the world its core values, hence its extreme importance for all participating groups.

 

Two factors contribute to the clarification of what is articulated and how this contributes to the fomentation and formation of a Pan-Celtic identity, both individually and collectively understood:

On the one hand, the aims that guide our existence are not the product of an arbitrary and sovereign choice, but the product of a contextualized self-interpretation of our situation within a spiritual and cultural community horizon that precedes us. From this perspective, what primarily gives meaning to the existence of each one of us, Celts, are pre-existing substantial contents that will allow us to weave our own narrative. These contents are already pre-registered in Celtic Spirituality and Culture in the form of Tradition. This Tradition, that we have in common, that binds us, that unites us, that allies us, thus functions as a unifying framework of a meaning that, being common, is necessarily inclusive and that can be Found.

 

It is from the articulation between the commitments, the identifications, the choices of each one of us and the communitarian cultural horizon that precedes us, that  can emerge a Celtic Identity which will be manifested and recognized as worthy by our Ancestors and Spiritual Heritage. Thus, our Tradition, atavistic as it is, can only be properly interpreted in the light of solidified results, works resulting from community and intercommunal efforts and from the articulation of feelings and experiences. Otherwise, a fractionated and unrecognizable over time identity will prevail. However, it is necessary to emphasize that the interpretation of Tradition as a solidified result does not imply its stagnation or its perpetual repetition, on the contrary.

 

In fact, the development of the Celtic Tradition is guaranteed by the possibility of reflexive integration of the old value meanings in the face of new realities, solidifying and affirming the constitutive values through which we form our identity. It is these constituent values of the Celts as individuals, and otherwise of the collective identity as Egregore, that will enable humanity to perceive the value map by which the Celts of today orient themselves in the construction of their lives and their communities, as well as the important message they convey, concerning, for example, Nature, which the Celts regard as the Supreme Sacred Being.

Such constituent values can be designated as "moral sources", that is, sources that can motivate and inspire human action into the world, and are therefore worthy of being pursued, aspired, desired and transmitted. Otherwise, when a constituent value of a community is not an articulated value to all its constituents, it may eventually fade, that is, lose its driving and inspiring force of human behavior or action, that is, it risks losing effectiveness as a moral source and, by extension, as a spiritual source.

 

In this sense, all Celts worthy of that name need an identification group. People do not learn on their own what is necessary for their self-definition: expressions, gestures, affection, love and spirituality - as forms of sharing and communion of Rituals and Ceremonies, more or less solemn, simpler or more complex – they have always been with us and they are a constitutive part of us.

 

If the meaning of Celtic identity is what we are, the reason we are, and the way we are, Celtic Egregore is the framework in which our tastes, desires, opinions, and aspirations make sense. This means that if the people here present identify with each other by their “Celticity”, that means, by the Celtic Tradition and Spirituality that binds them, then, this common ground justifies the reason why the Celtic Druid Alliance has chosen to hold cyclically these Gatherings and Pilgrimages to other Celtic Lands, to other Cultures, to other Houses, where the common sharing of these characteristics may give rise to an increasingly healthy Egregore through which a Pan-Celtic identity can truly emerge around an interest, an ideal and a Spirituality that, despite their various expressions, shares this common ground. This means that the various groups, even though having those variables that characterize people and allow them to identify, can always make room for the Encounter with others.

 

Dear Sisters and Dear Celtic Brothers, Dear Guests:

You are all very Welcome to the second Celtic Druid Alliance Gathering, to this House that belongs to all of you. It is our deepest wish that this Pilgrimage to the Lusitanian Celtic Land will be remembered in a very special way throughout your lives, as special and honorable it is for the Assembleia da Tradição Druídica Lusitana to welcome all of you at the Centro Druídico da Lusitânia.

 

/|\ Adgnatios

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