ALIANÇA DRUÍDICA CELTA: FUNDAMENTOS PARA UMA GRANDE FAMÍLIA - CELTIC DRUID ALLIANCE: GROUNDS FOR A BIG FAMILY

07/11/2019

 

 

Introdução

 

Em primeiro lugar, este texto que vos apresento nada mais é que um rasto de uma memória vivencial que procura recontar um caminho, como se da interpretação de uma partitura se tratasse, actualizando-a pelo respirar das suas palavras doadas. Não é, pois, de um simples escrito que se trata, mas de um pensar acerca de um sentimento, ou seja, de algo que por ter sido sentido e sobre ele se ter pensado, agora se apresenta sob a forma de escrita.

 

Quando se aborda conceptualmente o domínio da espiritualidade, invariavelmente nos deparamos com uma dificuldade suplementar: a espiritualidade é, com efeito, um domínio da interioridade, do “dentro” de cada um de nós, pelo que se torna difícil a qualquer palavra poder realmente exprimi-lo. Em verdade, o que se poderá dizer acerca daquilo que alguém vive quando se relaciona com o divino?

 

O caminho da espiritualidade começa precisamente com o propósito de aprender o que significa ser mulher, ser homem e, em conjunto, ser humanidade. E depois? Depois aceitar a sua condição, assumindo as suas carências para poder abraçar o caminho da luz universal e aspirar à realização do modo como cada um se vive.

 

Da Sabedoria

 

O inacessível ideal de sabedoria, no qual o sábio é o único que possui o reconhecimento, não retrata a sabedoria druídica. Pois, para um druida, o conhecimento nada mais é que um meio para chegar às evidências últimas, por via do qual se poderá encontrar o caminho para a verdadeira libertação. Neste sentido, sábio será aquele que alcançou uma auto-imunidade e por tal se libertou. A sabedoria druídica não se refere a uma filosofia analítica, mais próxima da actual noção de ciência, que recolhe informações, acumula, verifica, ordena, e assim emite juízos de facto, mas a uma filosofia das essências e da vida. A sabedoria druídica, mais do que um saber acerca de qualquer coisa, refere-se a um saber viver de forma essencial e a um saber fazer. É uma sabedoria ética, sustentada numa atitude razoável e prudente. Uma vez que é de espiritualidade que se trata quando nos referimos à Tradição Primordial, que é o ofício da constância do amor em tempos diferentes, ela é então uma proposta, um caminho ou uma proposta de caminho para a felicidade, sustentado numa vontade responsável que nos poderá levar à libertação. Pois só por via de uma vontade responsável poderemos ser livres e só livres poderemos ser felizes. 

 

Da Comunidade

 

No entanto, para que se atinja um estado de tendência para um caminho de libertação, é necessário vencer os medos que habitam nas profundezas do nosso ser. É verdade que podemos ainda não estarmos livres, mas também é verdade que podemos ser responsáveis. A mulher e o homem que constituem as múltiplas tribos celtas devem ser responsáveis, fazendo tudo o que depende deles em afirmação dos princípios que sustentam a sua identidade.

 

Mas a afirmação da identidade individual ou grupal é e sempre será um problema complexo, difícil de situar e difícil de resolver. Pois, se por um lado se torna fundamental na construção do sentido e sentimento de pertença de um indivíduo, grupo ou comunidade, inscrito na sua cultura, também pode levar a sectarismos quando sustentado em atitudes radicais e autistas de afirmação de um território espiritual, sentido ou cultura de um indivíduo, grupo ou comunidade, relativamente a outros. Se afirmarmos um território de sentido espiritual ou cultural, tal não implica que seja necessário diminuir outros sentidos, práticas ou identidades. Quando eu afirmo a minha identidade, eu não deveria sentir que só esta se encontra radicada no Bem, e que só a minha prática é virtuosa, mas em mim deveria habitar a intuição de que são precisamente as diferenças apresentadas por outras identidades que possibilitam revelar o que de melhor e pior há na minha, e com isso poder elevar o nível da minha consciência. Mas o que é que eu digo quando digo que gosto, por exemplo, da minha casa, do meu país, do meu sentido? Certamente que não deveria estar a dizer que este sentimento que nutro em relação àquilo que considero a minha pertença fundamental tenha que necessariamente colidir com outras pertenças fundamentais, impedindo-me de ir à casa do outro, levar valor, colher valor, e comungar deste sentido comum que é Tradição Primordial, uma Tradição que une na diferença pela construção e realização de um bem comum espiritual. Pois, como diriam Boaventura Sousa Santos e Eugénio de Andrade, pensadores portugueses: “temos direito à diferença quando a igualdade não nos descaracteriza; temos direito à igualdade quando a diferença nos inferioriza”, mas “é dentro de ti que toda a música é ave”... deixem-na cantar livremente dentro de vocês, e levem a sua música a todos aqueles que queriam comungar de uma Espiritualidade lúcida, responsável e amorosa.

 

Bem Hajam

 

/|\ Adgnatios

 

 

 

 

 

Introduction

 

First of all, this text that I bring you today is nothing more than a trail of experiential memory that seeks to retell a path, as if it were the interpretation of a score, updating it by the breathing of its donated words. It isn’t, therefore, simply a written text, but it is a meditation about a feeling, that is, something that has been felt and thought about and that for that reason is now under the written form.

When we conceptually address the spiritual domain, invariably we face an additional obstacle: spirituality is indeed a domain of interiority, the "inside" of each one of us, which makes it difficult for any word to express it. In fact, what can be said about what a person experiences when he or she relates to the divine?

The path of spirituality begins precisely with the purpose of learning what it means to be a woman, a man and together to be humanity. And then? Then, one should accept his condition and assume his lacks, to be able to embrace the path of universal light and aspire to the realization of the way each one of us lives is own life.

 

Of Wisdom

 

The inaccessible ideal of wisdom, in which the wise man is the only one who has the recognition, does not portray the Druidic wisdom. To a Druid, knowledge is nothing more than a means to get to the ultimate evidence through which one can find the path to a true liberation. In this sense, a wise man is the one who has achieved an autoimmunity and by it has freed himself.

The Druidic wisdom does not refer to an analytical philosophy, closer to the current notion of science which gathers information, collects, checks, orders, and issues judgment of fact, but  refers to a philosophy of essences and life.

The Druidic wisdom, more than a knowledge about something, refers to a savoir-vivre in an essential way and to a savoir-faire. It is an ethical wisdom based in a reasonable and prudent attitude. Since it is of spirituality that we talk when we refer to the Primordial Tradition, which is the practice of the constancy of love at different times, it is then a proposal, a path or a path proposal for happiness, sustained in a responsible will that can lead us to freedom. For only through a responsible will we can be free and only if we are free we can be happy.

 

Of the Community

 

However, in order to achieve a state of tending to a path of liberation, it is necessary to overcome the fears that dwell in the depths of our being. It is true that we can still not be free, but it is also true that we can be responsible. The woman and the man that compose the multiple Celtic tribes should be responsible, doing everything that depends of them as an act of assertiveness of the principles underpinning their identity.

But the affirmation of individual or group identity is and always will be a complex problem, difficult to locate and difficult to solve. Because, if on one hand it becomes fundamental in the construction of meaning and sense of belonging of an individual, group or community, inscribed in their culture, on the other hand it can also lead to sectarianism when sustained in radical and autistic attitudes of affirmation of a spiritual territory, meaning or culture of an individual, group or community, when compared to others. If we claim a territory of spiritual or cultural meaning, this does not imply that it will be necessary to minimize other senses, practices or identities.

When I assert my identity, I should not feel that only this is rooted in the Good, and that only my practice is virtuous, but it should inhabit in me the intuition that it is precisely the differences presented by other identities that make possible to reveal the best and worst in mine, and raise the level of my consciousness. But what do I affirm when I say that I like, for example, my home, my country, my meaning?

Surely I shouldn’t be saying that this feeling that I cherish regarding what I consider my fundamental belonging has to necessarily collide with other fundamental belongings, preventing me from going to other person’s home, bringing value, picking value, and partake of this common meaning that the Primordial Tradition represents, a Tradition that unites in the difference by the construction and completion of a common spiritual Good. For, as would say Boaventura Sousa Santos and Eugenio de Andrade, Portuguese thinkers: " we have the right to be different when equality does not decharacterize us; we have the right to equality when difference makes us inferior " but " it is inside you that all music becomes a flying bird "... let it sing freely within you and take its music to all those who want to take part of a lucid, responsible and loving Spirituality.

 

Blessings

 

/|\ Adgnatios

 

 

Texto publicado em A Revista da Tradição Lvsitana Nº1 - A Luz da Hiperbórea, Outubro de 2016, pp. 123-130.

 

 

 

 

 

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