A Expressão Oral da Tradição Primordial Lusitana

 

A Essência da Palavra Sábia: Ou de Um Sabor Assim Sabido

Por /i\ Adgnatios - Endre da Lusónia Ulterior e Guardião da CDA

 

Da escrita sábia diz-se: que tanto mais o é porquanto se aproxime da palavra dita, da qual, mesmo que não verbalizada e inscrita no corpo sonoro, também se diz que pretende dizer no dito o que as palavras ditas não conseguem totalmente ‘dizer’. Dizer, do indizível, é tarefa angustiante, pois a pretensão da palavra em igualar, como significado, aquilo que a coisa dita é por natureza, isto é, sentido, é algo que se encontra fracassado à nascença.

Não obstante, do mesmo modo que a nossa consciência não deve pactuar do alvitre de que à condição humana se encontra disposta, como tal, possível, a captura do Todo, também no ‘dizer’ de algo se deve ter noção que este parte naturalmente condicionado sob o jugo dessa mesma consciência que, por palavras, “diz” de algo, isto é, não julgar que por via do dizer se defina a “coisa” que, por natureza própria, nos transcende sendo-se. Não capturar, mas “estar em”; não reduzir, mas “abrir-se ao Todo” são possibilidades de transcendência para a própria condição humana alcançar a conexão ao Espírito Universal.

Acabei, como os sagazes leitores poderão ter constatado, de afirmar que aquilo que vou escrever, por via das palavras por mim (não) ‘ditas’, não irá reproduzir totalmente a ‘coisa’ que com elas vou “dizer”, outrossim aproximar-me, abrir-me ao seu sentido, isto é, dizer do indizível o que por via das palavras é possível, na minha humilde e imperfeita condição, dizer.

Esclarecido, então, este problema epistemológico, isto é, o de não ser possível “dizer” do indizível tudo o que acerca dele poderá ser dito, passemos então ao escrever possível do que pretendi à partida aqui ‘dizer’, ou seja, dar testemunho oral, por via da palavra escrita, acerca de “A Essência da Palavra Sábia: ou de um Sabor assim Sabido”.

A Palavra Sábia não é aquela que com que se sabe como dizer de “algo”, é aquela, que por alguém ter saboreado o “algo” que se vai dizer, isto é, por ter vivenciado esse “algo” ou “alguém”, vai através dar dela falar desse “algo” vivido, dizendo-o. Da palavra sábia também se diz que não poderá deixar a vida à espera de ser dita, isto é, não só se torna sábia pelo modo como diz o ser de “algo”, mas também quando o diz. Pois é, caros leitores, a Palavra Sábia não deixa a vida esperar, dí-la.

Dirão vocês, e com razão, estimadas leitoras e leitores: “que a vida não espera, mesmo que não seja dita”. Mas é precisamente por essa razão que entabulei as linhas antecedentes, pois a vida não se diz dela, a vida acontece-se e, como tal, não espera, pelo contrário: somos nós, que dela dizemos, que devemos assumir a vida dizendo-a, uma vez que a vida é, por essência e circunstância, ela mesma, sábia. A procura da vida sábia é bênção disposta, e dizê-la sabiamente começa com a assumpção dessa mesma disposição, procurando-a. Este “dizer” de que vos falo nasce, então, de um viver desejosamente livre e assumido em saborear a vida, dizendo-a e fazendo-a em nós. Não há quem diga tão bem a vida como aquele que a vive e não a faz, em si, esperar. Não fazemos esperar a vida, mas a vida em nós, essa sim, podemos fazer esperar.

Como dizer da vida, se não temos sabor dela? Pois é, não se diz, fala-se, mas o falar não é tão negativo assim, pois poderemos um dia alcançar o ‘dizer’ daquilo que hoje apenas se fala, mas ‘dizer’ é sempre ‘algo’ mais que falar.

Poderemos todos falar de um dia virmos a ser Druidas, mas, de “sermos” Druidas, só o sendo o poderemos ‘dizer’. Falar de “algo” tem diversas nuances, uma, a primeira, revela a intuição de que se está externo àquilo de que se fala; outra, a segunda, revela a intuição de que ainda não se é aquilo de que se fala; seguindo, a terceira, e a que aqui mais nos ocupa, não só demonstra que não se saboreou aquilo de que fala, como não se assumiu, humildemente, o compromisso de lutar para um dia 'dizer' daquilo de que um certo dia falou.

Pode parecer coisa pouca, mas, se verificarmos a existência de uma enorme proliferação de 'druidas' auto gerados, isto é, de meros “falantes” que um certo dia ao acordar assim se auto denominaram e assim decidiram falar, entenderemos, nas próximas linhas, que é de coisa grave que aqui se trata. Grave não só pela auto-ficção criada pela fala e não espalhada no ‘dizer’, muito menos no fazer, mas também grave pela condição de espera eterna em que colocam as suas vidas e as de inocentes incautos que, por essa mesma condição assolapada, assim são capturados e institucionalizados em ajuntamentos que mais não são do que novas formas (new age?) de hipostasia colectiva.

Neste sentido, podemos afirmar que, ao limite e salvaguardando as devidas proporções, a Tradição Druídica é a Sabedoria, sem quebras nem hiatos, desse contínuo assim “dizer” amoroso da Tradição Primordial, e que só por via de uma Linhagem regular, isto é, corrente de sentido constituída por quem diz porque sabe e sabe porque saboreou e saboreou porque viveu, poderá ser transmitida.

No entanto, a Tradição Ancestral, não obstante este seu contínuo dizer, funciona para nós, hodiernos filiados, aqui no sentido de amantes, como um arquétipo de recorrência no qual nos devemos sustentar com admiração[1] e responsabilidades inerentes à sua actualização, pois a nossa Tradição é Ancestral, mas não deve ser arcaica, isto é, não a devemos deixar disposta à obliteração pelos tempos.

Destarte, também podemos falar positivamente, por via da manifestação, por exemplo, de um profundo desejo de ‘vir a ser’, pois todos sabemos o quão importante é estabelecer metas ao discorrer da nossa vida, o que nos informa da extrema importância em nos relacionarmos com outros significativos, isto é, aqueles com quem somos porque confiamos. Mas é tão difícil ultrapassar o «falar» como o «ouvir», pois ambos podem-se tornar, a não ser que estejam apenas instituídas como condições propedêuticas, promotoras de autismo e clausura. Eu, quando ouço, ouço o que outro fala, eu, quando escuto, escuto o que a vida, por via do outro que está perante mim, me diz. E só poderei algum dia dela ‘dizer’ quando a aprender a escutar. É isso, uma escuta atenta permitir-nos-á começar a intuir o que “dizer”, isto é, a transcender os limites impostos pelas palavras faladas. Por isso se diz que a Tradição Primordial é uma Tradição Oral, ou seja, diz da Vida Espiritual a quem a escuta. O falar apela ao ouvir, o dizer apela ao escutar.

A palavra sábia só pode ser inscrita em nós se for escutada; sábio é aquele que ‘diz’ e que por dizer assim o é, não aquele que apenas fala, nada sendo. Fácil será entender que só aquele que «diz» se encontra mais próximo da verdade, que o transcende, é certo, pois esta é património do Divino, e que só aquele que escuta se encontra mais próximo de a ‘dizer’.

Mas ainda nos falta um último momento nesta pequena e humilde reflexão, digamos, sem rede, que nos foi proposta ser feita, pois o supradito apenas fez referência a uma pequena dimensão da actividade de um Druida: o «dizer» ensinante, ao humano, sobre o que a Vida, por via da Tradição Primordial, nos diz. Mas, como todos temos vindo a saber, um Druida é um ser metáxico, isto é, de forma simples, como “disse” Judite Jorge, “um ser que tem os pés na terra”, e que por essa via tem a responsabilidade de ‘dizer’ a verdade do Espírito aos humanos, “e a cabeça nas estrelas”, e que por essa via comunica com os Deuses e as Deusas, ou seja, é, neste sentido, também um “Animal” litúrgico. Mas como comunica um Druida com o Divino? Por via do «dizer» ou do «falar»? As Deusas e os Deuses respondem? Dizendo ou falando? As respostas a estas questões são próprias e dadas pelo exercício filosófico, que um indicativo mestre da nossa Tradição.

Importa, antes de avançarmos, reter algumas das importantes considerações que foram sendo tecidas ao longo deste pequeno ensaio:

  1. o falar pode fazer a nossa vida esperar;

  2. o dizer liberta a nossa vida;

  3. o escutar aproxima o homem do dizer;

  4. o dizer aproxima o homem da verdade;

  5. a verdade transcende o homem;

  6. não pode, o homem, ser “dono” da verdade;

  7. a verdade é património do Divino.

Então, como comunicamos nós, os Druidas, com o Divino?

 

A lógica formal concluiria: que se “o ‘dizer’ nos aproxima da verdade” e “ a verdade é património do Divino”, ao estarmos mais próximos da verdade, por via do seu ‘dizer’, estaríamos mais próximos do seu ‘património’ - este ‘património’, a que faço referência, é o Fluxo Energético ou Espírito Universal, mas entendamo-lo, agora, para melhor compreensão, como Vida. Mas estar genuinamente na Vida começa por entregarmo-nos em oblação a Ela, isto é, dispor à própria Vida o que ela nos doou, pois só por via de uma genuina abertura poderemos escutar o seu ‘dizer’, isto é, em nós, não a fazermos esperar, dizendo-a. Aqui, caros escutantes, a esgrima faz-se sempre entre a vida que se tem e a vida que se quer ter. Para se alcançar a vida que se quer ter, ou o que dela se quer ‘dizer’, é necessário, em, primeiro lugar, assumir a vida que se tem e situar as suas abrangências, retificando os erros ‘falados’, isto é, aferindo a não correspondência entre aquilo que se mostra ser e o que se é verdadeiramente, atitude que nos abrirá a porta de entrada na via da autenticidade e possibilitará o primeiro contacto concordante com o Fluxo Universal. E, assim, a vida já não espera, pois estaremos nela e com ela. Depois… escutar. Escutar os sinais pelos quais a Vida se diz e nos orienta, quer seja por via da sua Natureza, quer seja por via do esquema de recorrência a nós disposto pela Tradição Primordial. O caminhante que escuta, vive e pode dizer do seu testemunho. Compreende-se, então, que esta relação de ‘dizer’ do ser humano com a Vida revelada e com a sua Natureza é um ato de reconhecimento para com essa mesma Vida, para com essa mesma Natureza.

No entanto, esta Natureza que, não obstante, se presentifica, é água que jorra de uma «Fonte-outra», Transcendente, isto é, remete-nos para a existência de outros mundos, Mundos no qual o ‘dizer’ é pouco. Neste sentido, no seu oficiar, um Druida, para entrar em comunhão com o Divino, Ora às Deusas e aos Deuses. O seu “dizer” ao Divino é um momento da partitura de uma primeva e eterna Oração. O ofício do Druida é Orar e Escutar a Vida, a Natureza, e desse ‘viver” dar testemunho …‘dizendo’ dela. Sacralizar o humano é “Oralizar” dizendo o que se escuta. Entrar em comunhão com a Sacralização Divina é “Orar”… Escutando. E comunicar com o Divino: é entrar em comunhão como Espírito Universal.

Bem Hajam

 

[1] Chamo a vossa atenção para o profundo sentido desta palavra: “não só estar diante de, mas também problematizar o que parece ser evidente, isto é, procurar dentro o que está fora, assumir, renovar e dispor face ao futuro.”