A Expressão Oral da Tradição Primordial Lusitana

A Essência da Palavra Sábia: Ou de Um Sabor Assim Sabido

​Por /|\ Adgnatios - Endre da Lusónia Ulterior e Guardião da CDA


Da escrita sábia diz-se: que tanto mais o é porquanto se aproxime da palavra dita, da qual, mesmo que não verbalizada e inscrita no corpo sonoro, também se diz que pretende dizer no dito o que as palavras ditas não conseguem totalmente ‘dizer’. Dizer, do indizível, é tarefa angustiante, pois a pretensão da palavra em igualar, como significado, aquilo que a coisa dita é por natureza, isto é, sentido, é algo que se encontra fracassado à nascença.
Não obstante, do mesmo modo que a nossa consciência não deve pactuar do alvitre de que à condição humana se encontra disposta, como tal, possível, a captura do Todo, também no ‘dizer’ de algo se deve ter noção que este parte naturalmente condicionado sob o jugo dessa mesma consciência que, por palavras, “diz” de algo, isto é, não julgar que por via do dizer se defina a “coisa” que, por natureza própria, nos transcende sendo-se. Não capturar, mas “estar em”; não reduzir, mas “abrir-se ao Todo” são possibilidades de transcendência para a própria condição humana alcançar a conexão ao Espírito Universal.
Acabei, como os sagazes leitores poderão ter constatado, de afirmar que aquilo que vou escrever, por via das palavras por mim (não) ‘ditas’, não irá reproduzir totalmente a ‘coisa’ que com elas vou “dizer”, outrossim aproximar-me, abrir-me ao seu sentido, isto é, dizer do indizível o que por via das palavras é possível, na minha humilde e imperfeita condição, dizer.
Esclarecido, então, este problema epistemológico, isto é, o de não ser possível “dizer” do indizível tudo o que acerca dele poderá ser dito, passemos então ao escrever possível do que pretendi à partida aqui ‘dizer’, ou seja, dar testemunho oral, por via da palavra escrita, acerca de “A Essência da Palavra Sábia: ou de um Sabor assim Sabido”.
A Palavra Sábia não é aquela que com que se sabe como dizer de “algo”, é aquela, que por alguém ter saboreado o “algo” que se vai dizer, isto é, por ter vivenciado esse “algo” ou “alguém”, vai através dar dela falar desse “algo” vivido, dizendo-o. Da palavra sábia também se diz que não poderá deixar a vida à espera de ser dita, isto é, não só se torna sábia pelo modo como diz o ser de “algo”, mas também quando o diz. Pois é, caros leitores, a Palavra Sábia não deixa a vida esperar, dí-la.
Dirão vocês, e com razão, estimadas leitoras e leitores: “que a vida não espera, mesmo que não seja dita”. Mas é precisamente por essa razão que entabulei as linhas antecedentes, pois a vida não se diz dela, a vida acontece-se e, como tal, não espera, pelo contrário: somos nós, que dela dizemos, que devemos assumir a vida dizendo-a, uma vez que a vida é, por essência e circunstância, ela mesma, sábia. A procura da vida sábia é bênção disposta, e dizê-la sabiamente começa com a assumpção dessa mesma disposição, procurando-a. Este “dizer” de que vos falo nasce, então, de um viver desejosamente livre e assumido em saborear a vida, dizendo-a e fazendo-a em nós. Não há quem diga tão bem a vida como aquele que a vive e não a faz, em si, esperar. Não fazemos esperar a vida, mas a vida em nós, essa sim, podemos fazer esperar.
Como dizer da vida, se não temos sabor dela? Pois é, não se diz, fala-se, mas o falar não é tão negativo assim, pois poderemos um dia alcançar o ‘dizer’ daquilo que hoje apenas se fala, mas ‘dizer’ é sempre ‘algo’ mais que falar.
Poderemos todos falar de um dia virmos a ser Druidas, mas, de “sermos” Druidas, só o sendo o poderemos ‘dizer’. Falar de “algo” tem diversas nuances, uma, a primeira, revela a intuição de que se está externo àquilo de que se fala; outra, a segunda, revela a intuição de que ainda não se é aquilo de que se fala; seguindo, a terceira, e a que aqui mais nos ocupa, não só demonstra que não se saboreou aquilo de que fala, como não se assumiu, humildemente, o compromisso de lutar para um dia 'dizer' daquilo de que um certo dia falou.
Pode parecer coisa pouca, mas, se verificarmos a existência de uma enorme proliferação de 'druidas' auto gerados, isto é, de meros “falantes” que um certo dia ao acordar assim se auto denominaram e assim decidiram falar, entenderemos, nas próximas linhas, que é de coisa grave que aqui se trata. Grave não só pela auto-ficção criada pela fala e não espalhada no ‘dizer’, muito menos no fazer, mas também grave pela condição de espera eterna em que colocam as suas vidas e as de inocentes incautos que, por essa mesma condição assolapada, assim são capturados e institucionalizados em ajuntamentos que mais não são do que novas formas (new age?) de hipostasia colectiva.
Neste sentido, podemos afirmar que, ao limite e salvaguardando as devidas proporções, a Tradição Druídica é a Sabedoria, sem quebras nem hiatos, desse contínuo assim “dizer” amoroso da Tradição Primordial, e que só por via de uma Linhagem regular, isto é, corrente de sentido constituída por quem diz porque sabe e sabe porque saboreou e saboreou porque viveu, poderá ser transmitida.
No entanto, a Tradição Ancestral, não obstante este seu contínuo dizer, funciona para nós, hodiernos filiados, aqui no sentido de amantes, como um arquétipo de recorrência no qual nos devemos sustentar com admiração[1] e responsabilidades inerentes à sua actualização, pois a nossa Tradição é Ancestral, mas não deve ser arcaica, isto é, não a devemos deixar disposta à obliteração pelos tempos.
Destarte, também podemos falar positivamente, por via da manifestação, por exemplo, de um profundo desejo de ‘vir a ser’, pois todos sabemos o quão importante é estabelecer metas ao discorrer da nossa vida, o que nos informa da extrema importância em nos relacionarmos com outros significativos, isto é, aqueles com quem somos porque confiamos. Mas é tão difícil ultrapassar o «falar» como o «ouvir», pois ambos podem-se tornar, a não ser que estejam apenas instituídas como condições propedêuticas, promotoras de autismo e clausura. Eu, quando ouço, ouço o que outro fala, eu, quando escuto, escuto o que a vida, por via do outro que está perante mim, me diz. E só poderei algum dia dela ‘dizer’ quando a aprender a escutar. É isso, uma escuta atenta permitir-nos-á começar a intuir o que “dizer”, isto é, a transcender os limites impostos pelas palavras faladas. Por isso se diz que a Tradição Primordial é uma Tradição Oral, ou seja, diz da Vida Espiritual a quem a escuta. O falar apela ao ouvir, o dizer apela ao escutar.
A palavra sábia só pode ser inscrita em nós se for escutada; sábio é aquele que ‘diz’ e que por dizer assim o é, não aquele que apenas fala, nada sendo. Fácil será entender que só aquele que «diz» se encontra mais próximo da verdade, que o transcende, é certo, pois esta é património do Divino, e que só aquele que escuta se encontra mais próximo de a ‘dizer’.
Mas ainda nos falta um último momento nesta pequena e humilde reflexão, digamos, sem rede, que nos foi proposta ser feita, pois o supradito apenas fez referência a uma pequena dimensão da actividade de um Druida: o «dizer» ensinante, ao humano, sobre o que a Vida, por via da Tradição Primordial, nos diz. Mas, como todos temos vindo a saber, um Druida é um ser metáxico, isto é, de forma simples, como “disse” Judite Jorge, “um ser que tem os pés na terra”, e que por essa via tem a responsabilidade de ‘dizer’ a verdade do Espírito aos humanos, “e a cabeça nas estrelas”, e que por essa via comunica com os Deuses e as Deusas, ou seja, é, neste sentido, também um “Animal” litúrgico. Mas como comunica um Druida com o Divino? Por via do «dizer» ou do «falar»? As Deusas e os Deuses respondem? Dizendo ou falando? As respostas a estas questões são próprias e dadas pelo exercício filosófico, que um indicativo mestre da nossa Tradição.
Importa, antes de avançarmos, reter algumas das importantes considerações que foram sendo tecidas ao longo deste pequeno ensaio:​

o falar pode fazer a nossa vida esperar;
o dizer liberta a nossa vida;
o escutar aproxima o homem do dizer;
o dizer aproxima o homem da verdade;
a verdade transcende o homem;
não pode, o homem, ser “dono” da verdade;
a verdade é património do Divino.
Então, como comunicamos nós, os Druidas, com o Divino?

A lógica formal concluiria: que se “o ‘dizer’ nos aproxima da verdade” e “ a verdade é património do Divino”, ao estarmos mais próximos da verdade, por via do seu ‘dizer’, estaríamos mais próximos do seu ‘património’ - este ‘património’, a que faço referência, é o Fluxo Energético ou Espírito Universal, mas entendamo-lo, agora, para melhor entendimento, como Vida. Mas estar genuinamente na Vida começa por entregarmo-nos em oblação a Ela, isto é, dispor à própria Vida o que ela nos doou, pois só por via de uma genuina abertura poderemos escutar o seu ‘dizer’, isto é, em nós, não a fazermos esperar, dizendo-a. Aqui, caros escutantes, a esgrima faz-se sempre entre a vida que se tem e a vida que se quer ter. Para se alcançar a vida que se quer ter, ou o que dela se quer ‘dizer’, é necessário, em, primeiro lugar, assumir a vida que se tem e situar as suas abrangências, retificando os erros ‘falados’, isto é, aferindo a não correspondência entre aquilo que se mostra ser e o que se é verdadeiramente, atitude que nos abrirá a porta de entrada na via da autenticidade e possibilitará o primeiro contacto concordante com o Fluxo Universal. E, assim, a vida já não espera, pois estaremos nela e com ela. Depois… escutar. Escutar os sinais pelos quais a Vida se diz e nos orienta, quer seja por via da sua Natureza, quer seja por via do esquema de recorrência a nós disposto pela Tradição Primordial. O caminhante que escuta, vive e pode dizer do seu testemunho. Compreende-se, então, que esta relação de ‘dizer’ do ser humano com a Vida revelada e com a sua Natureza é um ato de reconhecimento para com essa mesma Vida, para com essa mesma Natureza.
No entanto, esta Natureza que, não obstante, se presentifica, é água que jorra de uma «Fonte-outra», Transcendente, isto é, remete-nos para a existência de outros mundos, Mundos no qual o ‘dizer’ é pouco. Neste sentido, no seu oficiar, um Druida, para entrar em comunhão com o Divino, Ora às Deusas e aos Deuses. O seu “dizer” ao Divino é um momento da partitura de uma primeva e eterna Oração. O ofício do Druida é Orar e Escutar a Vida, a Natureza, e desse ‘viver” dar testemunho …‘dizendo’ dela. Sacralizar o humano é “Oralizar” dizendo o que se escuta. Entrar em comunhão com a Sacralização Divina é “Orar”… Escutando. E comunicar com o Divino: é entrar em comunhão como Espírito Universal.


[1] Chamo a vossa atenção para o profundo sentido desta palavra: “não só estar diante de, mas também problematizar o que parece ser evidente, isto é, procurar dentro o que está fora, assumir, renovar e dispor face ao futuro.”

 

 

Clareiras a Céu aberto: ou o Cimo Branco onde o ser Divino, em silêncio, se respira - Um opúsculo sobre o pensamento teo-teleológico de António Ramos Rosa

Por Joaquim Pinto[1]


“(…) Dir-se-ia que ninguém está onde Deus respira
Mas Deus é o vazio que nada é para ser ele próprio
Nunca podemos dizer que chegamos à altitude divina
porque estamos sempre chegando sem chegar
Por isso estamos sem estar no círculo do seu espaço
Deus não é uma presença mas um pressentimento
que suscita a presença mais lúcida e mais vaga
do nosso ser que se ignora e que respira a sua ignorância
e o espírito que vibra nessa errante nuvem.”[2]

Breve nótula introdutória e algumas ressalvas hermenêuticas

Para alcançar a devida compreensão da filosofia poética de António Ramos Rosa torna-se necessário, antes de mais, ter sempre presente uma certa noção de fluxo integrador, linha de continuidade ou de apelo primevo cujo trilho de enraizamento se estende até à primeira noite dos tempos. Contrariamente a todas a omnímodas paradigmáticas, das quais se poderá dizer que, em cada época sua, representam inúmeros ‘estuários’[3] que resultam de diversas afluências e confluências de significação a montante, e que sob as suas égides sempre se atribuíram denominações que comportam o propósito de subsumir no seu leito conceptual um caudal semântico cada vez mais amplificado, algo que implica, por essência e circunstância, a constante adaptação das milhentas unidades de consciência humana em relação com esta contínua metamorfose, mas com ‘vírgulas’ que, ao invés de unirem, separam, contrariamente, dizíamos, e ressalvando as devidas proporções semânticas, a poesia de António Ramos Rosa oferta-nos um novo ‘rio’ que dispõe possibilidade de vínculo, ‘rio’ de sentimento sentido ou fluxo ‘líquido’ do tempo cujo significado primeiro e último vislumbra um ante e além tempo ou, ainda, melhor dizendo, um horizonte contínuo de adesão passível, no qual o homem assume, antes da procura e achamento, e demais que seja, a sua perda. Ainda contrariamente, não é, por isso, um ‘rio’ no qual coabitam, invariavelmente, por via das suas naturais estagnações, coagulações ou sedimentos, instaurando uma miríade de complexas sistematizações, quer possíveis, quer obliteradas pelos tempos, de que falamos, nem de um ‘rio’ que se encontre sempre determinado por balizamentos de condição ou fatalidade, que o impediriam de se tornar que naquele imenso mar que sempre o transcende, mas para o qual concorre, ou naquela ‘fonte’ antepredicativa da qual o seu ‘sempre’ continuamente brota. Falamos, então, de um ‘rio’ sobre o qual não se diz e que só pode ser falado por quem pressente “a sua extrema ausência”[4].
Todo este articulado introdutório concorre para realçar a distinção existente entre a filosofia poética de António Ramos Rosa e as filosofias ditas sistemáticas ou panlogistas, nas quais, não obstante quaisquer que sejam os pólos dialécticos nos quais se fixam o eixo a partir do qual se edifica qualquer sistema, são esses mesmos pólos que balizam as suas possíveis abrangências e ‘castrações’, ou seja, quer de um ponto de vista positivo, quer negativo.
Neste sentido, na maior parte destes sistemas, principalmente naqueles de carácter epistemológico, no que respeita à ciência dita clássica, ou psicológico ou psicanalítico, sem mais, no que respeita à consciência humana, existe objecto sempre que se conseguir identificar uma relação com o seu eixo de sustentação, isto é, enquanto o sentido, por via dessa efectivação, for exequível de ser alcançado.
Disto isto, podemos entender que, de um ponto de vista meramente epistemológico ou psicológico e, ou ainda, psicanalítico, existe objecto sempre ou até que se prove a sua ‘culpa’ semântica no sentido correlato do paradigma, isto é, e ainda no campo da metáfora, na construção do edifício desta ou daquela geografia de conhecimento, uma vez que não sendo possível provar-se a sua ‘culpa’, ou seja, ser predicado e integrado no espectro adequado do sentido, isto é, ainda, poder-se aferir, por via da prova, da sua verdade ou falsidade, estaremos perante a sua irredutibilidade, ou melhor dizendo, perante algo que, por não se conseguir determinar, se torna, por via dessa contingência, não num objeto, mas num obstáculo.
Esta separação da gramática feita na ‘habitação’ do objeto serve apenas para enfatizar que toda e qualquer referência feita ao mesmo é sempre referenciação de sentido em relação a um seu qualquer eixo, mas que toda ou qualquer aproximação metodológica feita aos pólos, ou aos referenciais dialécticos, nos quais o eixo se encontra fixo, apenas servirá para delimitar as fronteiras entre diferentes mundos, onde nuns habitam referenciais e noutros referenciadores e referências.
Destarte, mesmo que seja desiderato de alguns entes académicos encartados aludir a uma hodiernidade, dizem eles, de sentido contemporâneo, quer seja com o objectivo de descontinuar a memória dos tempos do sentido e estacionar os seus significados, quer seja simplesmente para iludir incautos ou capturar crentes para a sua doutrina, essas supostas luminárias, dizíamos, que orbitam em torno da academia, nada mais afirmam, mesmo não o querendo, que, apesar das naturais variações nos tempos de referenciação, dos referenciadores e até, arriscamos, das referências e nas suas ontologias próprias, sempre houve constância nos pólos, quer a montante, quer a jusante, não obstante estes assumirem, consoante as diferentes épocas, diferentes nomes e abrirem caminhos outros, muitas vezes resultantes da virtude ou genialidade filosófica ou poética de quem não se conforma em viver em águas estagnadas, como é patente no caso de António Ramos Rosa, autor que aqui nos ocupa.
Feita a devida ressalva de enquadramento filosófico, é precisamente acerca das correlações entres estes pólos que pretendemos ensaiar no pensamento de António Ramos Rosa, guindados pelos seus opúsculos poéticos «O Deus da Incerta Ignorância» e «Incertezas ou Evidências».

À procura do Céu em «O Deus da Incerta Ignorância»

Não sendo nova, uma vez que é recorrente em muitas tradições ancestrais, a predicação ‘brancura’, invariavelmente feita ao céu, sempre indiciadora de pureza, invariavelmente faz referência a um estado ascético prometido de liberdade, isto é, a um mundo livre de necessidades, de fatalidades, enfim, de todas as sujidades ditas humanas, contraponto imperfeito do divino.
Neste sentido, poderemos encontrar no pensamento poético ou na razão alquímica de Ramos Rosa, ao longo dos opúsculos poéticos que nos ocupam, “ato de mundação”, “mundos de tempos” e “tempos de mundos”, interpretação decorrente das seguintes menções:

1. “(…) Em qualquer caso nunca estamos perante ele | e se é a sua substância que nós multiplicamos e dividimos | ela não pode identificar-se ao seu princípio.”
2. “Só nesse cimo branco renasceremos | porque nos entregamos à silenciosa respiração | do ser divino que atravessa o nosso sono | e faz resplandecer a nossa incerta ignorância.”

Na primeira menção, para além de se apresentar como bastante claro à intuição a ‘existência’ de uma fonte de Luz ou Luz Incriada, Deus Criador ex-nihilo e o seu secreto círculo[5], o seu Mundo, também é patente, por contra reportação, porque dir-se-ia que ninguém está onde Deus respira, a noção em Ramos Rosa de que Deus é natural vazio e constante ausência, isto é, o mundo, mundado, não é confundível com aquele que o munda, “Deus não é uma presença mas pressentimento”[6]. É, no entanto, na segunda menção que poderemos intuir realmente o mundo-céu em Ramos rosa, o cimo branco onde renasceremos livres[7].
Esta consideração fundamental em Ramos Rosa, por certo até um pouco mítica, no que se refere aos relatos dos originais acima descritos, no entanto, não informa o propósito do alcance dessa Luz Incriada, isto é, a inteligibilidade desse Mundo de Deus, algo que se encontra vedado à razão humana, pois é Deus de mundo ignorado que para ser amado não são precisas provas, certezas e evidências[8], mas, outrossim, o acompanhamento da latência do Incriado como outro Mundo, o Céu, lugar de renovação de identidade[9] e firmamento desde a primeira noite dos tempos. É aqui que residem os fundamentos, ou princípios, do pensamento, se quisermos, teológico de Ramos Rosa, no sentido em que, mesmo que diferentemente, todos somos reflexos imanentes desta Incriatura, não obstante em constante procura pelo achamento dessa ‘brancura’ prometida.
É um mantra que atravessa o primeiro opúsculo, «O Deus da Incerta Ignorância», o pressentimento daquela de Luz Incriada e do Cimo Branco que ela aponta, este tido como algo que decanta ou emerge das trevas como Treva-Outra, distinta e Luminosa. Nos primeiros instantes poéticos, Ramos Rosa, informa-nos de que a via para a libertação se inicia pela assunção de nudez, de que se é um nada que deseja e só no amor encontra a sua consistência[10]. É o puro sentimento que possibilita o nada vir a ser, por via da conexão à unidade ideal da Consciência Cósmica e à presença do Uno Transcendente: O Incriado. Em Ramos Rosa é evidente o desnível[11] existente nesta relação enigmática de entre estes dois pólos, a criatura e o Incriado, nesta doce e incessante procura pelas dimensões mais profundas dos segredos do espírito que o discorrer poético do autor nos possibilita. A poesia de Ramos Rosa é uma proposta de saída desta “escuridão” gradual em que habita atualmente o ser humano, e nos tornarmos portadores desse olhar madrugador e sermos a presença lúcida e amorosa da criatura num mundo que habita no seio do Incriado que faz mundo.
Tudo isto concorre para afirmar que, tal como infere este «olhar madrugador» de Vieira, devemos, numa fase inicial, intuir que as leis resultam de emanação e como tal devem ser reflexos dos princípios primordiais, reflexos, esses, que operam em dimensões distintas, é certo, mas que são manifestações da Singularidade «sem excesso nem carência». Estes mistérios de uma procura pela Lucidez Espiritual ou Razão Alquímica em Ramos Rosa, desvelam-se quando atingimos a intuição profunda ou pressentimento de que existe um caminho para este Deus do Amor[12], ou Caminho de Espiritualidade; caminho que configura, em primeira instância e de forma particular e exemplar, uma demanda de si mesmo a partir de uma situação-limite de assunção de carência radical[13], na qual a figura simbólica de «O Caminho» se apresenta como via aberta para a sua superação. É, então, por via de uma Palavra-Portadora de Ser, descritiva emocional e encantatória, na multiplicidade dos seus recursos discursivos e retóricos, que Ramos Rosa diz do ser e do não ser. Este «dizer» reveste-se de um carácter único e originário, não apenas na perfeição das suas formas multímodas, na riqueza das referências culturais que encerra, mas também na coragem das suas propostas.
Para a maior parte dos ‘caminhantes’, esta situação de superação da carência radical transmuta-se num trânsito contínuo entre as suas dimensões constitutivas: o Mundo do Espírito e o Espírito do Mundo, num caminhar que se apresenta direcionado a uma finalidade: a ascensão ao Mundo da Luz Branca, ou, nas palavras de Ramos Rosa, ao «Cimo Branco» ou «Pureza Celeste»[14]. A aceitação da sua natural carência radical levará os futuros caminhantes à decisão entre a finitude possível de um beco sem saída ou à demanda por uma espiritualidade plena. É por via desta atualização dramática da condição humana, pois, não por acaso, frente às águas do Atlântico, que o poeta nos canta o sentir imerecido de Deus que em si desce[15].
É precisamente através deste pórtico inaugurado por este movimento catabático que avançamos com a nossa peregrinação por uma poesia tão rica e inesgotável em interpretações. Logo aqui assinalamos, como aponta o intitulado, o pressentimento anagógico da existência de uma promessa unificadora entre Incriado e Criatura, o alcance do céu, sob o descritivo alegórico, quiçá de ressonância ancestral Lusitana, mas também de algum modo homólogo, «Cimo Branco», portal de descensão do sopro benfazejo e mareante de Deus, que liga os tempos, pois é antigo como o mar e novo como as ondas.
Se flutuamos nas «ondas» desse mar, aqui também não é indiferente o lugar que em Ramos Rosa o coração toma sobre si, como órgão empático por excelência. Ele assume-se aqui não só como o recetáculo do sopro divino, prelúdio de um caminhar que melhor guiará e preencherá o coração dos caminhantes pela peregrinação abissal e, por vezes, amarga do oceano deserto do mundo, feito de dunas labirínticas, de desesperos, de lamentações, mas também de convicção, conforto e esperança. Esta metáfora do coração constitui-se assim como o centro, o ponto de partida da jornada que a poesia de Ramos Rosa nos exorta a trilhar, pois é lugar de movimento oscilante, de sístole e diástole, de purificação e de escolha interior, de sentimentos e de sabedoria. Senda perigosa que só pode iniciar-se pela decisão interior (metanóia) de demanda pela liberdade e de busca pelo Cimo Branco.
Como também já apontavam as poesias de Pascoaes e Antero, em «O Deus da Incerta Ignorância», Ramos Rosa, a partir desse vaso vital, desse recetáculo aparentemente esvaziado ou ausência grávida, reconstrói e restitui a identidade espiritual aos Lusitanos, algo que já se houvera perdido, fundido e dispersado pelos imensos desertos do mundo. Neste sentido, não será despiciendo amplificar a versada referência feita pelo autor, nos opúsculos que nos ocupam, ao sopro ou ao bafo, este último, não poucas vezes, sumptuoso, à própria poesia do autor, como se de uma tentativa de libertar uma voz que dentro se encontrara presa se tratasse, aportando assim a uma oralidade ainda ‘mais-possível’, prenhe até de uma ingrediência ultra semântica e cuja razão de escolha radica no facto de também poder funcionar como meio promotor de identidade espiritual entre caminhantes, servindo esta ‘quase’ oralidade como um centro de encontro unificador, diferenciador, mas sempre unitivo de uma comunidade arquetípica. Esta opção, que é também um topos de pertença cultural e um ponto motriz de partida, funciona como um seio ou útero materno[16], como refere o autor, por via do qual os caminhantes se nutrem de sentido e que lhes proporcionará não só uma anamnese refundadora da consciência espiritual, mas um reposicionamento na ordem temporal do seu horizonte de futuro, retomando a peregrinação em direção a um lugar que não é uma mera utopia, mas outrossim um topos bem definido, a «Clareira da Luz Branca», ou «Cimo Branco», aqui como referência última na procura de um Ethos de sentido Espiritual ou de uma busca de um si mesmo (memória, amor e génio primitivo), de um lugar – uma habitação ou casa onde o ser divino, em silêncio, se respira. A linha condutora do reconto poético desta narrativa ancestral encontra-se e joga-se numa tensão inicial genésica. E de que forma nomeia aqui Ramos Rosa este Incriado? Esse Outro radical, transcendente e único que emanou possibilidade de criação, por via de um acto incondicional, Amor Puro, espelhando-se como num espelho de água? - Exprimindo-O pela interjeição amorosa de «Deus do Amor»[17]. É neste contexto que se inscreve, também, a situação do homem, aquele “nada que deseja”[18], pois as suas palavras, tribulações, consolações e obras tomam, na poesia de Ramos Rosa, ‘lugar-como’ de instrumentos de manifestação da vontade livre possibilitada pelo Deus Benfazejo, O Simples[19]: escutando-O ou ignorando-O; dizendo-O ou calando-O. À guisa de conclusão desde ponto, deixemos falar nas linhas que se seguem as ‘palavras’ de Ramos Rosa, que termina o opúsculo com a seguinte ‘dedicatória’, ou enlevada expressão, na qual se encontra patente o que temos vindo a aludir: “Ao deus [sic] que ignoro mas desejo | para estar nele como numa folha de silêncio de água | ofereço o que em mim é nada e nada quer | porque tudo o que eu conheço é a sombra desse nada.”[20]

Telos e outras ressonâncias em «Incertezas e Evidências»

É a natureza elemental que sustenta o cenário idílico que acolhe este segundo opúsculo, onde discursam e convergem diáfanos protagonistas animados, como se para eles rememorar e refocilar só aqui e assim fosse possível. É, dizíamos, no refúgio da natureza que tudo se passa como se nos sentíssemos carentes de regresso a uma fonte original onde as nossas próprias lágrimas e as águas de um rio próximo assumem um caráter catártico, purificador.[21]
O choro amargo da carência, expressão da alma errante e atribulada, e as lágrimas purificadoras do sentimento situam-nos no início do trilho que, seguindo-o, nos levará à morada onde poderá aportar a alma atormentada: o Céu.
Ramos Rosa mostra-nos que é precisamente esta tensão interna que leva o caminhante a começar o seu processo de transmutação ou regresso ao ser de si mesmo. Assim se inicia a predisposição e o processo da escuta atenta do silêncio, ofício explanatório de amor e esperança num imenso bem por via de uma suma glória.[22]
Em Ramos Rosa, a morte, bem como a dor, a tortura, o sofrimento, bem como o erro, são apenas passagens ou veredas ásperas que também se apresentam como uma oportunidade de experiência, aprendizagem e redenção ou resgate. Possibilidade, também, para a afinação da atenção, escuta, introvisão ou conhecimento ou vivência plena da (re)visitação divina. A questão fundamental será, então, «não perder a alma», isto é, não se deixar aprisionar num dos pólos da dialética metáxica: morte (por sofrimento, infidelidade ou vazio ou ausência do divino – seria esta a noção de inferno em Ramos Rosa) versus vida realizada (por fidelidade ou plenitude ou presença do divino, alcance do Cimo Branco).[23]
Mesmo nos abismos de dor, não perder a esperança e abrir “na nossa sombra um espaço”[24]. Há como que um mar amargo e um deserto abrasador de lume e padecimentos cuja travessia se tem de empreender, durante a qual se terá de reconhecer os limites da dor insuportável e do grito indizível da carência. O essencial será, então, neste contexto, nunca deixar de procurar o caminho, o trilho ou o socorro divino, por via da busca de um silêncio que seja voz no ‘dentro’ de cada um, uma voz que é a Voz-Fluxo do silêncio do «ser» e bafo do «vir a ser», e também voz mesma do sujeito mesmo que busca a Voz…e que também é objeto da sua demanda.[25]
Fazer cá a nossa casa lá, sempre edificando e reedificando ‘Clareiras’ abertas a um «Cimo Branco» pleno de sentido, mesmo que ciclicamente destruídas, corresponde, deste modo, à homologação final entre a nossa morada Terrestre e este Mundo da Luz Branca, ‘cume’ da Bem-Aventurança lenta e silenciosamente desvelado pelo autor, no qual, em certa medida, se encontram plasmados os objetivos últimos de uma peregrinação poética, material e espiritual, interior e exterior do Povo Lusitano-Atlante.
Para que tal peregrinação se faça de forma benfazeja, é sempre necessário ter presente a consciência da errância da condição humana e, simultaneamente, não louvar penhora a bens terrestres, insígnias de vã glória que em tudo se assemelha a um desfilar de sonhos numa realidade que tem nada mais que uma mera consistência onírica.[26] A Razão Divina prevalece, mesmo perante supostas desgraças. As perdas sucessivas podem-se metamorfosear pela consciência dos nossos erros e não serem entendidas como fatalismos, mas como a afirmação de uma liberdade de escolha.[27] A presentificação e confissão dos erros, racional e finalmente revividas e entendidas, poderão torná-los, por fim, aceites.[28] Por via da revelação, é este o passo primeiro para uma interiorização plena de um providencialismo divino e personificado pela virtude e preenchido pelas preces e cânticos de louvor ao Divino.[29]
A memória ou anamnese, inteligência ou racionalidade e intuição, imaginação ou emoção são faculdades, chamemos-lhes assim, que em Ramos Rosa se entrecruzam no decurso de ambos os opúsculos, entrelaçando-se, intensificando-se, até se materializar numa escrita que se transcende e transmuta na fruição de um eterno momento da ordem do inefável e que, por via de uma imunidade à condição imposta pelo seu tempo, assim se torna poesia. Manifestações e vivências sensíveis, expressões, pois, de uma sensibilidade e de uma sensualidade de metamorfose, dada essencialmente pelo sentido da visão alquímica de Ramos Rosa, dita na primeira pessoa do singular, numa fruição onde o material e espiritual se volvem finalmente em unidade, tal é o sentido de uma ressuscitação e descensão do Espírito Lusitano em descendentes atuais que hoje se vestem do seu paramento.[30]
«Vestir do seu paramento», metáfora que alude às vestes e ao ethos, requer, antes de mais, um despojar, despir ou mesmo um arrancar da veste suja e expor a sua nudez humilde, expiando a tormenta que um dia se recompensará pelas vestes verdadeiras concedidas: em suma glória jurada em amor.[31]

Alguns – poucos – apontamentos finais

A poesia de Ramos Rosa, no que respeita ao seu discorrer, sustenta-se na Palavra portadora de Ser como legitimadora de transmissão do sentido etiológico de uma Singularidade Primeva, querendo, assim, o autor, nos apresentar a existência de uma Entidade Incriada, espargida por emanação de Si mesma, naquilo a que o ‘bardo’ de Faro designou por Sopro ou Sumptuoso Bafo, qual manifestação do Espírito ou Fluxo Energético Universal. Embora quanto ao processo que origina a omnipotência e a omnisciência da Singularidade Incriada existam algumas divergências, de acordo com as diferentes correntes interpretativas, há uma noção que é comum: O Incriado em nada se assemelha à criação e nenhuma imagem Dele poderá ser feita, visto que qualquer alusão feita a esta Entidade Suprema, Incriada, se refere apenas à manifestação mediada e sentível da Sua energia, e não à sua Essência Singular.

Bem Hajam



[1] Doutorado em Filosofia, Docente e Investigador. Sublinha-se que este artigo foi originariamente publicado em «O Céu é apenas um disfarce azulo do Inferno», Porto, Ed. Universidade do Porto, 2017, pp. 77-80.
[2] Cf. António Ramos Rosa, Deus da Incerta Ignorância seguido de Incertezas ou Evidências, Guimarães, Pedra Formosa, 2001, p.6.
[3] Propositadamente, não estamos a fazer referência ao «estuário de luz» da página 69 da op. cit.
[4] Ibidem, p. 5.
[5] Ibidem, p.8.
[6] Ibidem, p.6.
[7] Ibidem, p.7.
[8] Ibidem, p.14.
[9] Ibidem, p.7.
[10] Ibidem, p.11.
[11] Ibidem, p.7.
[12] Ibidem, p.10.
[13] Ibidem, pp.10-11.
[14] Ibidem, p.28.
[15] Ibidem, pp.7 e 20.
[16] Ibidem, pp.7.
[17] Ibidem, pp.10.
[18] Ibidem, pp.11.
[19] Ibidem, loc. cit.
[20] Ibidem, p.52.
[21] Ibidem, pp. 5 e 20.
[22] Ibidem, p. 23.
[23] Ibidem, p. 66.
[24] Ibidem, p. 23.
[25] Ibidem, p. 5.
[26] Ibidem, pp. 14 e 23.
[27] Ibidem, p. 31.
[28] Ibidem, p. 27.
[29] Loc cit.
[30] Ibidem, p. 25.
[31] Ibidem, p. 26.