A nossa Linhagem


Da Linhagem da Tradição Ancestral a que  pertencemos:

​​A Linhagem da Tradição Espiritual Primordial

A mais profunda noção de Tradição refere-se sempre a um sentido constante do acontecer Espiritual do homem ao longo dos tempos, o que não implica que esta seja apenas uma memória vã e que não possa ou não deva assumir diversas actualizações por via das diferenças nos tempos. É neste sentido que se diz que uma Tradição «é antiga como o mar e nova como as ondas» que a renovam pelos tempos, o que faz dela algo de profundamente vivo e dinâmico enquanto os seus cultivadores e cultivados lhe disponibilizarem o seu coração, órgão empático por excelência, e através do qual a Tradição fará as suas diversas sístoles e diástoles inscrevendo Sentido profundo num profundo Sentir.

É precisamente por via deste profundo vínculo existente, declinado de um profundo sentir, entre a Tradição e os seus múltiplos corações vivos e pulsantes, que podemos hoje, instante constante de fluxo, falar de uma Linhagem sem que sejamos acusados de estarmos presos a meras mitificações. A Linhagem nada mais é que o devir de uma narrativa de Sentido e Sentimento Espiritual que, dado o seu carácter transcendente, perpassa os tempos de uma já longa memória humana.

Ao limite, é esse sentido e esse sentimento livre, plasmado num profundo compromisso ético, que assume a responsabilidade de se apresentar como exemplo no ser, fazer, estar e agir, que informa a construção de uma corrente de sentido que poderá ser transmitida pelos tempos, a qual designamos como Linhagem Regular. Se uma Tradição, conforme já foi referido, deverá assumir uma certa constância pelos diferentes tempos, isto é, deverá observar e manter sempre presentes e actualizados os princípios que estão na base da sua emergência, não é despiciendo referir que esta também resulta necessariamente de um sentido filosófico primevo que lhe permitiu alcançar evidências essenciais, um sentimento profundo de Amor ao Transcendente, que se lhe apresenta como o fundamento e a razão da sua existência, e pela observância de um conjunto de valores basilares, que informa da sua prática virtuosa, pois uma Tradição é uma proposta de caminho ou um sentido de caminho ou um Caminho ele mesmo Sentido que não se deverá circunscrever apenas àqueles que o cultuam, outrossim, deverá ser levado a paragens-outras que careçam de horizontes de realização e de meios para cumprir o seu destino humano à face desta Terra que nos é comum.

A Linhagem é uma transmissão activa e contínua de um Sentido Espiritual que informa uma prática coerente com a observância dos princípios de uma Tradição, razão pela qual existe, entre os Druidas da mesma Linhagem, o sagrado compromisso de honra em defender e manter esse Sentido Espiritual, por via do seu estacionário que é a Tradição, longe da profanação. Neste sentido, os Sacerdotes de uma Tradição, corpo dinâmico de um Sentido Espiritual, não deverão permitir que as suas egrégoras se encontrem filiadas a organizações que não cumpram a observância dos princípios e valores que orientam a Tradição no Caminho do seu Sentido Espiritual, pois, caso o permitam, esta perecerá por descaracterização essencial.

A Linhagem poderá levar, caso as egrégoras assim livremente o decidam, a uma filiação, mas esta última apenas resulta da primeira e não existe qualquer relação comutativa. Uma filiação nada mais é do que o resultado de uma vontade de uma ou várias Linhagens se institucionalizarem, com vista, por vezes, à sua organização social, mas estas organizações em momento algum se poderão substituir às Linhagens, cuja esfera é mais gregária. Uma coisa é, por exemplo, uma cooperativa de artesãos, à qual diversos mestres de uma determinada arte se poderão filiar, outra, bem distinta, são os saberes dos mestres da arte para os quais a cooperativa é apenas um modo de organização da sua actividade: sem aquilo que resulta do saber da arte, isto é, o artesanato, não há cooperativas, mas, mesmo sem cooperativas, o saber dos mestres da arte poderá sempre ser, produzir e ensinar a produzir artesanato. O saber da Arte, aqui entendida como Tradição, é assunto da Linhagem, daí que a filiação tudo deva à Linhagem e a Linhagem tudo deva à Arte, que na nossa Tradição é o diálogo íntimo com o seu Sentido Espiritual mais profundo: é como se o Amor, por via de quem ama, se amasse a si mesmo. Um Druida, então, poderá ser tido como um Mestre da Arte de um saber virtuoso assim sabido, e que por essa via poderá ensinar todos aqueles que comunguem desse Sentido Espiritual mais profundo. Poderá também, este Mestre, ao aferir da predisposição natural do “fogo numénico”(da Arte) e da pureza residente no coração daqueles que aprenderam o Ofício e as suas virtudes, designá-los como Mestres aptos a ensinar essa Arte virtuosa, transmitindo-lhes, assim, o seu apoio e o seu reconhecimento da capacidade que estes terão em fazer saltitar de si o “fogo numénico” e levar o saber da Arte a outras paragens. A transmissão da Linhagem é assim um reconhecimento do acontecer virtuoso de alguém que teve primeiramente a capacidade de se auto-disciplinar e aprender uma Arte tão antiga como o mar e tão actual como as ondas e, depois, assumir o sagrado compromisso de a levar pelos tempos, fazendo-a acontecer, ensinando-a… transmitindo-a… fazendo dessa Arte o esteio de uma comunidade genuína. E uma Arte (estética) em comunidade é uma Ética aplicada.

Neste sentido, partindo da premissa de que qualquer comunidade genuína resulta da partilha, entre os seus membros, de um sentido comum, atitude de onde declina, necessariamente, um profundo sentimento de comunhão e pertença, prefigurando assim, mais do que um território, espaço ou lugar do ponto de vista material, um ethos, isto é, um território com sentido arquetípico de realização espiritual, ou seja, um horizonte de "vir a ser" que se nos apresenta como Tradição, Cultura e até vereda ou um Caminho cujos passos nelas ou nele dados se sustentam em princípios orientativos da acção de quem concentra em si tal sentimento de pertença, partindo daquela premissa, dizíamos, também a Egrégora Lusitana ainda hoje obedece à mesma etiologia, não obstante algumas diferenças que emergiram pelos tempos.

Tudo isto concorre para afirmar que de uma Tradição Espiritual (e da sua linhagem ou linhagens), em qualquer tempo e lugar ou ainda sem tempo e sem lugar, isto é, em qualquer dos casos, arquetípica, poder-se-á dizer que, esta, ao limite, se resume ao que as suas Egrégoras de etiologia mestiça, conhecem, reconhecem, sentem e crêem. É pela evidência desta complexa fragilidade basilar, por via da qual se constitui ou dissolve o sentido de uma Tradição, que se torna importante trazer à colação a evidência de que aos ‘Lusitanos’ dos nossos tempos, hodiernos portadores de uma Tradição Mestiça, cuja origem reporta à primeira noite dos tempos, se pede um acréscimo no compromisso e responsabilidade com vista à sua activa participação na realização do destino humano à face deste Território Espiritual que nos é comum, através da partilha dos referenciais éticos sobre os quais a sua Tradição ou Cultura fora erigida, pois uma Cultura ou Tradição que não preserve a continuidade do sentido da sua história e não o partilhe está condenada a não conseguir alcançar o seu Sentido mais amplo e a não realizar as suas autênticas aspirações, isto é, está condenada a perecer nos tempos, não se apresentando assim como uma Tradição verdadeiramente atávica, do ponto de vista comunitário, e, por dependência e amplificação daquela, Espiritual. Neste sentido, devemos manter sempre viva a necessidade de uma procura ou tentativa de reflexão dialogante acerca dos diversos eixos que configuram e suportam este ‘polimorfismo cultural’ que designamos como "Tradição Celta", da qual também fazemos parte, e o modo como eles poderiam contribuir para um Bem-Comum de génese Espiritual, isto é, aportar algo que se constituísse verdadeiramente como valor que contribuísse para uma realização benfazeja do destino humano à face da Terra, não descurando, claro está, também, o substantivo impacto positivo que tal Ética Espiritual, isto é, este horizonte de referenciação e\ou complexo de valores identificados na Tradição Celta, implicaria caso fosse amplificada, ou correspondesse, às dimensões ambientais e às relações com todos os seres que habitam esta Terra da qual todos são subsidiários e co-usuários.

Em resumo, seja uma Arte que se volva em Ética, e assim mesmo também ela Arte de realizar em egrégora um Sentido Espiritual, ou seja, uma Ética que se volva em Arte, só um coração humilde, isto é, puro, estará verdadeiramente preparado para receber esta Arte, e só quem realmente se sustente nos princípios e valores da Tradição, isto é, na sua Ética, a poderá genuinamente ensinar. Neste sentido, a Tradição, sendo o ‘corpo’ pelo qual o Sentido Espiritual é trazido pelos tempos, nunca deverá estar sob o jugo de organizações sectárias, proselitistas e discriminatórias, que na maioria das vezes resultam da desmesura dos egos de quem as ‘dirige’, razão pela qual foi recentemente criada a Celtic Druid Alliance, à qual a ATDL se filiou na convicção plena de que, finalmente, este Sentido Espiritual que nos é comum poderá, à imagem dos nossos ancestrais, ser de novo observado e cultuado de forma digna por todos os que dele comungam, pois é neste sentido que se diz que uma Tradição é, dada a sua ancestralidade, verdadeiramente atávica.